
No início, era Zaratustra, de Nietzsche: a reclusão existencial, a apatia sentimental; tudo mudou, aos poucos, após As Viagens de Gulliver, de Swift, como uma chave que, com facilidade, um novo mundo, um novo panorama me foi aberto à contemplação; de súbito, na sequência, tudo voltou-se a Fausto, de Goethe e sua busca incessante por tudo aquilo que estava além do intelecto, além desta existência, passando por seu pacto, talvez, inconsequente, embora tão humano, e o encontro derradeiro com sua Margarida; Exúpery e seu O Pequeno Príncipe deram as caras, revelando um amor tão inocente, sincero e valioso, onde de alguma maneira, minha rosa fora cultivada, colocada sob minha redoma, sob meus cuidados, acalentada em meus sentimentos; e, agora, tudo me parece Quando Nietzsche Chorou, de Yalom, onde nem mesmo o mais forte e mais subersivo dos homens conseguiu engolir à seco seu pranto, causado por sua Lou Salomé e nem mesmo um dos mais ricos doutores se furtou das recordações, agora tristes, de sua Anna O., ou Bertha Pappenheim, como queira.
Não quero, contudo, que encare este texto como uma espécie de carta de amor, ou um artifício pueril, adolescente, de cunho desesperado. É apenas um desabafo já que, há tempos não o faço por simples medo de que um dia viesse a ler abertamente sobre os meus sentimentos por você.
Hoje está um dia nublado, cinzento, e até cálido demais. Estive, por todos esses dias, segurando o meu pranto interno, evitando escrever para que este lamento não tornasse em lágrimas que, agora, umedecem este escrito. Eu sei, é claro, que deveria deixar-lhe ir assim, sem mais nem menos, sem aprofundar ainda mais estas minhas feridas, sem gerar ainda mais cicatrizes... Mas como poderia? Como poderia eu abandonar tudo, atirar tudo isso aos ventos, sem nem ao menos a chance de me expressar, de lhe contar, de fato, tudo o que me aflige, o que sinto, uma vez que nem a melhor oportunidade para o mesmo me tenha aparecido? Então, este primeiro parágrafo acima me veio à cabeça há alguns dias e, enfim, resolvi explanar o que talvez ele queira dizer, ainda que eu não o consiga fazer da maneira mais profunda.
E eu juro ter tentado ao máximo, tentado deixar tudo pra lá, tentar odiá-la, detestá-la, mas que razões eu tenho para isso? Recordo-me de ouví-la me dizer, frequentemente, a frase "tenta de novo", quase como um bordão de algum filme pastelão de comédia romântica; lembro-me, também de tua voz, após levantarmos da cama em um certo grau de êxtase, vê-la deixar as lágrimas escorrerem sem pudor e dizer-me que "se um dia tivermos que ir embora, afastarmo-nos um do outro, ou por alguma razão as coisas viessem a entre nós mudar, eu haveria de reconquistá-la". Estas palavras -- e muitas outras, não nego -- ainda ecoam em minha cabeça como palavras vociferadas numa caverna profunda e escura.
À minha mente, vem também sempre aquele trecho -- Los Hermanos -- que, um dia, ébria, olhaste em meus olhos, pedisse que eu prestasse atenção, que era esse o trecho que querias que eu compreendesse, tendo em vista ser o resumo do que sentias por mim: "Ah, vai, me diz o que é o sossego/ que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar/ E se o tempo for te levar/ Eu sigo essa hora e pego carona para te acompanhar". Eu prestei atenção e gravei isto nos recônditos da minha mente, em meus neurônios de maior qualidade. Lembra-te disto? Eu ainda gostaria que fosse assim. Que estivesses, agora, pegando carona para me acompanhar.
Às vezes, até me seria válido obrigar a mim mesmo a ver-te como gente da pior espécie. Não, não é que sejas, de fato. Mas seria menos doloroso, eu me enganaria e tudo estaria bom para mim. Mas eu não posso. Não posso olhar para os lugares em que estivemos, sem que me venha a tristeza, a vontade de chorar e, logo, eu coloque um sorriso de plástico no rosto enquanto, por dentro, isto me corte profundamente como uma navalha; enquanto estas lembranças corróem-me por dentro como alguém que resolve sorver ácido; minhas canções prediletas já não são mais as mesmas: é de ti que eu lembro por detestar umas, gostar de outras, mas no fim sempre abrir a tua mente a um novo conhecimento. E assim, todas as minhas recordações voltam-me novamente a você. "Onde quer que eu vá, este pedaço de casa continua levando-me a ti", como em "Red, White & Blue", do Judas Priest, que nunca quis lhe mostrar por ela dizer o que sinto e demonstrar todos os meus medos de tua partida e achares-me um tremendo palerma. Recorda-te daquele dia, quando, sentados no sofá da sala de um de nossos amigos, eu entrei num súbito pranto aparentemente inexplicável, ouvindo "Silent Lucidity", do Queensryche? É, aquela música que toca no episódio em que o Sam chora, em "Supernatural", por uma garota que ele precisa matar... Pois bem, meu pranto não era inexplicável. Era por lembrar da felicidade que eu sentia naquele momento; porque me identificava todas as vezes em que eu "sorria próximo a você, em silenciosa lucidez", como dito nesta canção; lágrimas resultantes da sensação de mesmo sobre todos os contratempos, ter o orgulho e o prazer de estar ao teu lado, ajudando-lhe a segurar o mundo, porque sempre soube que, muitas vezes, as coisas tornam-se mais fáceis quando divididas. E você, como sempre, achando que minhas lágrimas tinham uma outra dona que não você...
Olho as bitucas de cigarro espalhadas pelas ruas, e meu cérebro apenas consegue trazer à tona que muitas delas foram as nossas, depois de noites inebriados, caminhando lado a lado e você levando tombos na rua. Elas fazem-me lembrar de como me tragaste com facilidade, mesmo com toda a minha dificuldade de falar, de expressar as coisas que senti e sinto ainda hoje. Como aquele dia em que, bêbados, fumávamos como loucos, jogando estas bitucas repetindo de maneira errônea, mas tão agradável a frase "Tu es inscrite dans les lignes du plafond", pouco antes de decidires estudar a língua; peças do meu vestuário ou do teu, que ainda se encontram aqui, fazem também emergir em meus pensamentos a tua presença, evocam a tua figura ou ao menos situações pelas quais estivemos juntos, encarando o mundo e o medo. Aquela tua touca, que era do teu pai, e que você dizia achar tão bonita quando em minha cabeça, por exemplo, ainda encontra-se aqui comigo e às vezes ainda a utilizo e sinto uma parte tua aqui comigo; Minhas séries, meus livros, até desenhos meus para você estão aqui, guardados, e não consigo deles desfazer-me. Recorda-te daquele teu balão vermelho sobre o mar, com um sol pintado de branco? Aquele teu papelzinho com um desenho que fizeste no trabalho onde, nele, havia uma árvore cheia de coisas que gostamos e até uma arma apontada para nossa cabeça mas que, fazia com que tudo isso fosse irrelevante, onde tudo isso não conseguia nos fazer parar de olhar fixamente um para o outro com um sorriso sincero e caloroso no rosto? Pois é, eles ainda encontram-se aqui, juntos com o desenho que lhe fiz com flores no cabelo, cujo verso da folha continha aquele trecho por nós tão repetido do Led Zeppelin e que falava sobre a garota com amor nos olhos e flores no cabelo que alguém encontraria na Califórnia. Essa garota era você.
Eu ainda desabo em lágrimas, hoje, ao ver qualquer episódio de "Supernatural" para distrair minha mente, porque era isso que sempre víamos juntos, deitados, trocando carícias. Guardo-os todos com muito carinho e saudade, embora cheio de sofreguidão, como souvenirs daquilo que ainda está cravado no meu peito. Recordações de todas as vezes que retrocedemos no tempo, lembrando de cada degrau da escada, como chegamos ao ponto em que estávamos: de minha timidez, de cantar "Vila do Sossego" juntos, até a primeira vez que nossos lábios se encontraram e que, diga-se de passagem, foi um tanto estranho, todavia tendo criado uma ligação tão esquisita e forte que o mesmo passou a encaixar-se perfeitamente entre nós dois; até mesmo o meu pranto noturno por ti fazem-me apenas entristecer-me mais, num círculo vicioso. Porque, estas lágrimas, outrora, eram apenas o meu suor, recaindo sobre teu corpo despido, debaixo dos cobertores, como naquela vez em que, em frenesi, disseste que me amava e pediu-me até desculpas por tê-lo feito num momento que a ti parecia inoportuno, e isso ainda dói; mesmo as cicatrizes que tenho em meu corpo foram feitas enquanto estávamos lado a lado, e elas nunca hão de sair.
Dói ainda estar aqui, neste mundo. Ver um pedacinho teu em cada rua que adentro, bêbado; ver um pedacinho seu em cada parte da minha casa, tuas marcas espalhadas por todos os cantos. Ver os meus amigos perto de você -- porque são teus amigos também -- e temer chegar perto deles. Não poder estar lá, ao lado deles, rindo como sempre fizemos, junto com eles e com você, também, por medo de vê-la, por raiva, fugir de mim e pior, vê-la se afastar dos amigos verdadeiros que lhe apresentei, única e exclusivamente por conta de tudo o que, agora, vem acontecendo (e eu espero firmemente que deles não te afaste, uma vez que sei que os mesmos ainda lhe fazem bem e hão de fazer como bons amigos que são); meu quarto ainda está repleto de tudo o que era teu. Meus cobertores ainda tem o calor do teu corpo, de todas as vezes que debaixo deles nos deitamos e ficamos aqui, assistindo alguma coisa boba antes de ir para algum lugar encher a cara.
Agora, tudo o que vejo é você distante de mim, indo embora e eu nem sei para onde, para quem. Vejo-te partir quando, antes, o teu pesadelo era ver-me "pegar o meu caminho com outro alguém." Eu sei, talvez eu enxergue tudo de maneira distorcida em função de tudo aquilo que tenho por ti. Mas em contrapartida, não há como me furtar: tudo o que eu queria era estar lá, contigo, lhe dando todo o abrigo que meu coração sempre lhe entregou e lhe poderia ainda entregar. E eu ainda estou aqui, de pé, querendo lhe entregar novamente tudo o que posso e até o que não posso.
Gostaria que soubesse, minha Anna O., que não lhe culpo por tudo, embora talvez eu precisasse fazê-lo. Como alguém pertencente a classe dos homo sapiens, tenho os meus erros, os meus pecados, que são muitos. Já lhe disse coisas que não queria dizer apenas para aliviar o meu medo, para tentar fazer-me odiá-la, ao menos por um instante, e sei como isso pode ter-lhe ferido em algum ponto, da mesma forma que decorreria comigo, caso acontecesse o contrário. Peço-lhe mil desculpas sinceras por isso.
Contudo, gostaria que soubesse firmemente, aceitasse em teu âmago, que todas essas coisas foram por amor, puro e simples; gostaria, minha Lou Salomé, que compreendesse que, embora tenha sido muito racional uma boa parte de minha vida, agora o que me resta é um sentimento. Um sentimento tão forte que, às vezes, à minha racionalidade sobrepujou.
Este fui eu, que detinha o medo de lhe falar o que sentia; que lhe escondia tudo, mas que agora, infelizmente não lhe consegue ocultar mais nada. Que vem até aqui, de peito aberto, divagar e desabafar, não só como o homem, mas como o amigo que lhe fui ou ao menos tentei ser. Porque, muito embora por um tempo eu lhe possa ter sido um companheiro, eu nunca deixei de ser teu amigo. Ainda que embora ser só o teu amigo me açoite tanto.
De todo o modo, e de maneira talvez vergonhosa, sou obrigado a lhe confessar novamente o óbvio: eu lhe amo e custo a acreditar que seja esse um adeus. E, se em alguma coisa errei, só posso fazer pedir-lhe desculpas bem sinceras. Afinal, como eu disse, se algo lhe fiz, foi única e exclusivamente por amor. Para proteger a minha rosa.
Exúpery disse, em seu Pequeno Príncipe que "[...] Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos. [...]Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante. [...] Os homens esqueceram essa verdade [...], mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...". E isso sempre resumiu e sempre resumirá tudo aquilo que por todo meu corpo ainda se faz presente, as tuas marcas, o teu cheiro, o teu sabor, o teu toque e até mesmo tua voz unidas àqueles olhos que pareciam devorar-me por inteiro e não deixar-me nada. Ainda estão enraizados em meu coração os teus trejeitos e expressões corporais; ainda é lembrança até as coisas bobas que você fazia, mas que me deslumbravam de uma maneira tão intensa que às vezes me fazia sentir um tolo, por não querer que o tempo passasse naquele momento, para nunca teres de ir embora, de partir, ainda que eu soubesse que, dia ou outro ainda a veria. Aquele teu "riru riru" ainda é algo que tento aprender. Foi contigo e só contigo que aprendi a imitar Eric Cartman. E é a tua falta que eu sinto toda vez que, hoje, o faço.
Eu não gostaria, é claro, de ter que despedir-me. De todo o modo, se assim for preciso, quero apenas que aceite minhas sinceras desculpas. E os meus agradecimentos por, se em algum momento, tiveres chegado até o fim deste texto longo, maçante e, talvez até desinteressante.
Por muitas vezes, encerrei meus textos com Goethe, Nietzsche, Yalom ou qualquer outro autor de minha estima. Hoje, e por tudo o que vi, senti e ouvi ao teu lado, sou obrigado a encerrar este escrito com algo que você me mostrou, e que continua reverberando na minha cabeça, ainda que a ti não faça sentido:
"Mesmo que não venha mais ninguém
Ficamos só eu e você.
Fazemos a festa, somos do mundo,
Sempre fomos bons de conversar.
Eu só espero que não venha mais ninguém
Aí eu tenho você só pra mim.
Roubo teu sono, quero teu tudo,
Se alguém mais vier, não vou notar."
Com carinho, de teu Josef Breuer.