segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Ode ao dia que não se encerra


Os dias tornaram-se densos, pesados... um fardo a suportar; os pensamentos mais negros que a própria escuridão. Todo o verde torna-se cinza. Seus demônios lhe assombram como nunca o fizeram outrora. Eles gargalham enquanto dançam e rodopiam e as vozes deles ecoam em sua mente. 

Você liga uma música e deita-se. Enquanto isso, uma linha vocal inicia-se, unissonante à sua mente: "Why did I make two steps instead of one?/ Why am I not wanted to come back?". Mas ela já não canta 'da boca pra fora'...

Você sente o coração pulsar cada vez mais devagar; a respiração está ficando difícil; o clangor dos sinos da Morte parecem mais altos. Mesmo com tão pouco tempo, o crepúsculo da existência parece haver achegado-se.

Então, ao fim do dia, algo volta a colorir a existência. Por um momento, você volta a sorrir, sente uma fagulha de alegria que, a uma mente quase desfalecida, parece oferecer uma sensação quase incendiária, com tão pouco...
Mas no fim, como todas as coisas, tudo volta ao normal: a vida torna-se novamente apenas cinzas; a alegria torna-se novamente apenas um esboço incompleto da realidade. E uma vez mais, você encontra-se em seu quarto, afogado em uns poucos pensamentos inúteis. Sua única companhia é o ópio. Novamente, reflexões mórbidas tomam-no de assalto. Você contempla o ar claustrofóbico e rarefeito, as paredes brancas e um ambiente sem vida. Você olha em todos os cantos, seus delírios aumentam, e você sente uma mão a pesar em seu ombro. É uma mão pesada, mas amiga; parece convidá-lo a um beijo final. Então, você olha para aquele pedaço de metal, e eis que esse beijo silencioso lhe é concedido com um simples apertar de gatilho... 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Daily quotes #2


A verdade dói. Mas ainda que possa por vezes parecer um flagelo, ela é mais uma libertação do que um fardo. E nisso, houve um autor que conseguia exprimir com extrema facilidade o que tento dizer: seu nome era Friedrich Nietzsche.

Nietzsche nasceu em 1844, em Röcken, na Alemanha, fruto de uma família Luterana. Diferente de grande parte de seus contemporâneos, Nietzsche sempre foi à frente de seu tempo. Como ele mesmo costumava suscitar em suas obras, ele era um autor posterior; um autor para o depois de amanhã.

Seja por seu ardente amor não correspondido à uma mulher  (Lou Andreas Salomé) ou pelo inferno causado pela sua ligação com sua irmã Elisabeth, o alemão aprendeu, da pior — porém mais realista — forma a verdadeira natureza do que nós homens humanos, demasiado humanos, chamamos sentimentos.  Principalmente, a relação entre o amor, a compaixão, o egoísmo e a destruição. Muito provavelmente, a espinha dorsal de grande parte de sua obra seja resultado da união destas circunstâncias. E nisso, há um trecho em seu Assim Falava Zaratustra que, hoje, exprime também aquilo que penso sobre os maiores e mais poderosos dispositivos de destruição jamais criados: o amor e a compaixão em demasia. E é com ela, que encerro a noite de hoje:

“Ai! Onde se cometeram mais loucuras do que entre os compassivos? E, na terra, o que mais fez sofrer do que as loucuras dos compassivos? Infelizes daqueles que amam sem deter controle de sua compaixão!
Assim me falou o Diabo um dia: ‘Deus também tem o seu inferno. É o seu amor pelos homens. E recentemente, ouvi dele dizer estas palavras: ‘Deus morreu. Morreu de seu amor pelos homens”.

(NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra: Um Livro para Todos e Para Ninguém, p.103. § Dos Compassivos. 2007, São Paulo, ed. Escala. Col. Grandes Obras do Pensamento Universal).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Do Zeitgeist Modista

Minha cultura, minha literatura, meus gostos... tudo está banalizando-se. Outrora comprazia-me de saber que construí a mim mesmo sem precisar embasar-me nas idéias de outrem; quão satisfatório era saber que um dia fui livre dos dogmas e grilhões aos quais a corrompida sociedade me compeliu.     

Hoje, tudo parece-me tão superficial, tão clichê — transgredir virou moda. Antes, eu era um dos poucos a apreciar o estilo musical "X"; agora, parece que hoc genus omne de imbecis descerebrados passou a tentar imitar sim, imitar, porque só há “gosto” quando há sinceridade. Outrora, a arte intrínseca e por vezes incógnita dos gêneros musicais e líricos que aprecio parecia dar nós-cegos nas mentes dos menos privilegiados intelectualmente, ou daqueles que preferiam utilizar-se de um cabresto intelectual; hoje, esses nós já não são suficientes para afastar esta corja de ignorantes de mim e daquilo que realmente amo como a mais pura expressão de meus próprios sentimentos. Meus entretenimentos e diversões, tudo, tudo caiu nas mãos da turba, e com isso, pareço eu também apenas mais uma gota na chuva.     
   
Talvez sequer seja sensato de minha parte incomodar-me com esse tipo de coisa. Afinal, já não sou mais um mero garoto, a ponto de dar importância a algo que, a terceiros, parece tão sem importância. Mas, é como o amor: ele é único, forte, intenso; e por ele, mata-se e morre-se. De fato, é também uma forma de amor; amor àquilo que no passado, não lhe conferiu forças, mas mostrou-lhe a que intrinsecamente presente em você está.   

Mas um dia meus pensamentos hão de ser novamente meus, porquanto essa gente pueril um dia abandonará a imutável verdade imposta pelos clichês do zeitgeist; e então, ver-se-ão aqueles que realmente moldaram-se a si próprios alheios às idéias de outrem. E os restos... ah!, os restos... ficarão à margem do rio da vida, pois o fracasso é característica sempre inerente àquele cuja mente ainda não aprendeu a se aventurar.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Daily quotes #1

"Você cresce e então entende o talento da humanidade,
e aí descobre que a vida é uma piada. Nada além de uma mentira.
E um velho amor com um tentador sorriso tenta te convencer que tudo valeria a pena.
Faces que outrora não via há tempos já não podem saciar a dor de uma temerosa mente jovem."

—Beyond my Bad Dreams, by Overdose. 

Agalloch





"We are the wounds and the great cold death of the Earth...".

Para unir o folk, o ambient e o black metal a letras niilistas, mórbidas e depressivas, é preciso uma certa maestria. Poucas bandas conseguiram essa façanha sem escorregar em algum item essencial. 
Nesse ínterim, há uns três ou quatro anos, uma grande amiga que mora longe, bem longe no Sul, me apresentou a uma das maiores obras-primas da música: o Agalloch.

O som do quarteto é espetacular: a música é bem elaborada, unindo o melhor de cada estilo supracitado. O vocal extremo do rasgado lírico típico do black metal usado de maneira suave, sucedido por vocais limpos, calmos e sem exageros, são quase um sussurro na orelha — e às vezes literalmente o é, como observado na canção A Desolation Song, do álbum "The Mantle".

As letras, então, são impecáveis: odes à misantropia, ao niilismo, à natureza. Não se trata de letras na linha do chamado "DSBM" ("Depressive Suicidal Black Metal"), mas de algo muito mais profundo — filosófica e poeticamente.
Ortograficamente bem estruturadas, cheias de eufemismos, metáforas e significados internos, dos quais muitas vezes é preciso vivência e reflexão para estar à par do sentido. Uma linguagem e um sentimento intrínseco que beira quase a um poema musical.

Agalloch é o tipo de banda que foge dos dogmas e dos clichês do metal, aventura-se em campos inimagináveis da música e consegue angariar admiradores por todos os âmbitos: do mais famigerado, chato e fanático headbanger ao mais seletivo e moderado eclético musical. 

Enfim, para abrir o blog com chave de ouro, aqui ficam minhas favoritas. São elas:  In the Shadow of Our Pale Companion, ...And the Great Cold Death of The Earth e A Desolation Song. Respectivamente, segunda, oitava e nona canção do álbum "The Mantle", lançado em 2002 — ao meu ver, o melhor de todos os trabalhos do quarteto (sem, claro, desmerecer os outros petardos):



In the Shadow of our Pale Companion


...And the Great Cold Death of the Earth


A Desolation Song