quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Escrito no Verso da Capa

    Há uma translação terrestre lhe tenho a envoltar minha enfadonha existência; mas à medida cósmica que nos distancia do mais próximo dos exoplanetas corresponde minha afeição a ti dirigida.
Péssimo sou em dedicatórias ou demonstrações afetivas, sabes tu não ser este o maior dos pouquíssimos de meus fortes. Mas, se há algo que não posso me furtar a aproveitar é a oportunidade de direcionar intelectual sentimentalmente esta obra.
    Parecer-lhe-á — como ao meu jugo pareceu, outrora — um simples livro infantil, de coloridas formas e figuras; de linguagem simples e até de poucas páginas. Contudo há, nesta breve estória, uma mistura de elementos que compõem todo aquele sentimento pueril que muitos costumam abandonar frente ao "homem sério", ao humano dedicado às coisas da "vida" - embora esta "vida" seja, a muitos, mera existência, onde faz-se mister o emprego de uma maturidade plástica, calcada em terra fofa — a que todos, por simples pressão cotidiana, almejam alcançar. Peço que leia com o máximo de calma possível, no teu tempo e que, após fazê-lo, refestele-se em tuas reflexões e as mude, se lhe for cabível. Não quero com isto, é claro, lhe parecer o teu Mefistófeles, o diabo disforme e rebelde que à iconoclastia entrega Fausto e quase o leva a tragédia. Mas talvez uma tragédia, uma ruína psicossentimental (sic) seja a fagulha inicial de uma explosão colossal de novos universos a futuramente lhe rodear, como o foi a este que vos escreve.
    Desta maneira, entrego-lhe esta obra. Afinal, em meio a toda esta amálgama de mundos e conceitos novos ao qual você, que a este livro recebe, me apresentou, espero também retribuir-lhe com os meus horizontes, com o pouco que talvez lhe tenha a oferecer. Deixo aqui registrado então o que talvez venha a ser a quintessência deste escrito de Antoine Saint-Exúpery e que, creio eu, calha como o mais significativo ensinamento sobre tudo o que nas palavras que lhe disse acima possa haver para encerrar esta breve dedicatória mal escrita:

"— [...] Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
— O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
— Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
— Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
— Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável
pela rosa...".

domingo, 13 de outubro de 2013

Da puerícia, do anseio, do amor

Eu poderia escrever linhas e mais linhas e talvez jamais conseguisse descrever em uma totalidade fiel o que em meu cerne parece vociferar de maneira cortante, rasgando meu peito. Mas não, eu não consigo. Sinto-me um adolescente espinhento, bobo e inexperiente que conhece o primeiro amor.
É tudo tão familiar, porém tão estranho e de uma intensidade que jamais ousei conhecer... o que faz a mim tua companhia? O que há de especial nestes olhos que parecem me absorver, me tragar, me digerir vorazmente sem deixar-me nada quando mesmo que rapidamente fitas-me tão implacavelmente?
Ouço tua voz e ela soa como uma peça inteira de Richard Strauss resumida em apenas alguns poucos segundos ao qual dedicas-te a falar em função de tua personalidade inexoravelmente reservada, sóbria e breve.
Em tua presença sinto-me sempre como o camundongo enfeitiçado pelas mais belas notas que Hamelin jamais conseguira tocar... é como prestar os ouvidos a um bardo enquanto o mesmo recita algum conto antiquíssimo e misterioso — um mistério teu sui generis que ferozmente incitas-me a desvendar.
De algum modo, conseguiste resgatar em mim uma sensação tão abstrata e positivamente pueril que agora me comparo a um mero adolescente mesmo quando não estás por perto: em minha casa, fico contando os minutos para vê-la dar o ar de tua graça e um sorriso sincero e natural emerge em minha face, sem que sequer haja um motivo explanável; refestelo-me em mil pensamentos e todos eles hora ou outra inevitavelmente hão de retornar à tua figura, como se não houvesse outro mundo a desbravar que não o teu; lhe abraço e meu coração acelera e eu desejo nunca mais soltar-lhe, pois teu abraço ajusta-se perfeitamente ao meu, como num entrelaçamento de almas.
Adentraste meu mundo como ninguém jamais ousou ou conseguiu fazê-lo. Tua beleza, tua voz e toda a tua essência removem todos os meus medos, minhas frustrações e a todos os meus anseios revela. Tuas palavras me inspiram como se eu houvesse descoberto a quintessência da arte, da poesia e da filosofia, a panacéia do amor que a todas as chagas cura, a todas as cicatrizes faz desaparecer e dá longevidade a este sentimento tão puro e terno.
Às vezes quero em me enganar, deixar para lá, mascarar tudo como se nada houvesse em meu coração. Mas já não o consigo, esta é uma via de mão única e que não há retorno. E eu espero, daqui em diante, alcançar o meu destino. Aquele sentimento sincero, aquele laço inquebrantável a que chamam amor; uma existência regada a Black Sabbath e Los Hermanos, lembra? Ou, quem sabe, uma simples noite, deitados e abraçados noite à dentro, observando o vindouro alvorecer após sucumbirmos àqueles desejos que, sabemos, ocultam-se nos recônditos de nosso espírito e que nos torna eternamente escravos por opção.
Só peço-lhe, então, que venha comigo. Em troca, quero apenas a tua beleza, a tua presença e o teu amor. O resto, com maestria damos conta...

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

E eu odeio...

          Odeio quando preciso despedir-me de ti, ainda que saiba que no dia seguinte haverei de ver-te uma vez mais. Eu odeio ver as horas passarem mais rápidas que a luz a se propagar no vácuo quando de mim estás próxima. Odeio ver-te em prantos por razões que deveriam ser de fácil resolução, mas que infelizmente às minhas mãos deixam atadas de forma a sentir minha impotência perante o que lhe aflige. Odeio ver minhas noites se alegrarem intensa e inexoravelmente por um tempo tão precioso, contudo tão curto. Odeio aguardar em frenesi para novamente ouvir tua voz enquanto discutimos música, religião, filosoia e qualquer outra coisa que em nossos percalços sempre esparra, como se tudo conspirasse para que essa flâmula jamais se ofuscasse, enquanto lhe espezinho por teus gostos agradável e vergonhosamente semelhantes aos meus.
          Eu odeio... odeio... odeio, repudio, detesto.
          Mas hoje a noite há de ser, como sempre, nossa, só nossa. E eu hei de regozijar-me uma vez mais por tua companhia que a mim se faz tão dileta, por conseguir, ao menos um pouco, alguém que veja a existência do mesmo lugar que eu: a visão distante, ignorantemente racional de quem parece não pertencer a este mundo; uma visão vinda do alto.
          E embora venha rapidamente a se esvairem as horas, são tuas palavras que haverei de guardar comigo enquanto em meu leito repouso; é do teu ébrio sorriso que haverei de recordar antes de finalmente adormecer; é teu abraço forte e acalentador que me acalmará pelo resto de madrugada que me resta enquanto bebo mais um gole e fumo outro cigarro, com os mais afáveis pensamentos em ti e em tua graciosa estranheza, despertados por teu toque e teu cheiro em minhas vestes estampados, fazendo de todo esse ódio um bizarro e entorpecedor prazer.
          De fato, talvez essa tua loucura seja realmente semelhante à minha...

domingo, 6 de outubro de 2013

Ecos Faustianos

Está acontecendo de novo... mãos trêmulas, suando; boca seca, coração acelerado, inquietude sem razão; saudades daquilo que pode vir a ser, do futuro... 
O que acontece, finjo a mim mesmo não saber, deixo sempre o mistério a me guiar. Prefiro enfiar goela abaixo apenas uma realidade criada e desestruturada, as coisas são sempre mais fáceis assim. 
De qualquer maneira eu sonho; vamos sair, vamos beber juntos e, inebriados, cantar "Vila do Sossego", como frenquentemente fazemos às tardes. E se a brisa do amanhã for favorável, seremos nós, vendo as areias do tempo fluirem, juntos, você e eu. Eu em meu carinhoso escárnio a escrever "loser manos" para que ria e me ache um bobo, ouvindo teu olhar a me dizer coisas incríveis; você, tirando sarro dos meus trejeitos hostis e da minha austeridade intelectual; nós, rindo feito infantes no albor da inocência até o fim dos tempos.

"E a este sentimento, a este atroz recontro
Nomes procuro dar, nenhum jamais encontro.
Através deste mundo arrojo meus sentidos
E me apego a alguns termos altos, escolhidos;
Neste fogo intenso em que tanto me inflamo,
de Infinito, de Eterno e Sempiterno chamo.
Seria isso uma farsa, infernal, idiota?".¹




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¹GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

E embora não desejasse, a madrugada traz apenas o mesmo: fumaça pulmonar, uma música nostálgica qualquer e recordações. Há talvez de ser sempre assim, mas não me importo. Com o ontem, o hoje, o amanhã, comigo, com ninguém. Uma simples canção resume: Death is certain, life is not. Todavia, no fundo, eu apenas consiga pensar em Wish you were here.