sexta-feira, 26 de abril de 2013

Do Derradeiro Desfecho



—"Quando a gente conversa
contando casos, besteiras,
tanta coisa em comum, deixando escapar segredos..."


     Lembra-se disto?

     Os ponteiros do relógio dobram-se rapidamente. Já são quase cinco. Permaneço acordado. Um cigarro, uma xícara de café e profundos mergulhos em mim mesmo.
Vejo-me ainda atormentado por tuas memórias, e mais: pelas minhas próprias recordações. O pesar parece sempre reincidente, cíclico, contínuo; permanece ecoando nos abismos de meu coração. 
     Todavia, já não és mais a dileta. Razão, talvez de meus prantos silenciosos; de meu choro interno. 
   Por vezes, busquei em outros corpos o prazer. E consegui — apenas isso e nada mais. O gozo temporário, parcial, carnal, paliativo, fútil e ignóbil, completamente distinto do prazer duradouro que outrora fora a tua presença, o teu prazer, a tua intimidade.
     É impossível, claro, negar a mim mesmo o martírio que é tua ausência. Entretanto, nada mais importa-me agora; não és mais a minha razão sine qua non. Até não muito tempo, ofuscado foi meu amor por todo o ódio, por toda a mágoa que no cerne de meu espírito ardia. De maneira infeliz, esse sentimento ridículo, egoísta, irracional e imbecil que é o amor ainda me consome a ponto de prevalecer, de fazer-me odiar o meu próprio ódio por ti, a minha aversão pela persona desprezível e ignóbil que insistisse em tornar-te.

   Assim escrevo, então, estas últimas palavras forjadas a marteladas e brasa quente. E, numa nota de rodapé invisível, num vocífero silencioso, deixo registrado: este é o fim; é este o crepúsculo de meu amor. Minha derradeira palavra antes de encerrar esta obra repleta de erros. E embora seja meu último registro, não é meu último cair de noite, e sim uma nova aurora: a alvorada, quem sabe, de um novo conhecimento, de um novo amor, de uma nova experiência, de um novo espetáculo. Espetáculo esse do qual jamais serás novamente parte do elenco. "Ainda é cedo, amor...".

     Engraçado como outrora um artista tão banal acendeu a nossa centelha. Mais engraçado ainda ser ele, consequentemente, o representante máximo de nosso desfecho. Desta forma, então, encerrarei:


—"A emoção acabou, 
que coincidência é o amor. 
A nossa música nunca mais tocou...".

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