Numa madrugada qualquer, acendo um cigarro e sigo até a
varanda. Observo o lento e cálido alvorecer e, perdido entre o tempo que se esvai,
flutuam minhas reflexões. Uma música fúnebre é audível; uma mistura entre a
música do ambiente e a sinfonia da morte que se aproxima.
Os ventos trazem a brisa gélida. O coração parece querer
cessar o pulso. Dou um trago, e com a fumaça exalada dos pulmões, a alegria, as
cores da vida parecem também partir.
Olho para o horizonte e recordo meus passos: os caminhos que
trilhei; as expectativas que mantive, as esperanças… todas elas desaparecem no
espaço vazio, como se outrora jamais houvessem existido. Os amigos que fiz, os
amores, a vontade de viver, tudo… tudo parece não mais que ilusório, um esboço malfeito
daquilo que um dia ousei ansiar.
Vejo-me, agora, sob outra perspectiva: a perspectiva inferior,
a perspectiva do negativo de um retrato. Já não mais mantenho qualquer
expectativa. Parece-me a morte já tão comum… talvez até um meio, uma solução.
Em vias de fato, sinto-me por vezes um covarde, incapaz. Covarde por não manter
a coragem ao ponto de simplesmente finalizar esta medíocre existência da
maneira mais fácil; incapaz por não poder parar o meu próprio tormento. O medo
da morte toma-me ainda de assalto.
Em outros tempos, o ópio parecer-me-ia um inimigo mortal. Hoje,
faz-se, talvez, meu melhor amigo — minha passagem para o fim, meu amargo,
desesperado e acovardado ponto final, sem precisar enfrentar os provocantes olhos do Ceifador.
Destruir-me lentamente ainda parece um meio mais rápido de chegar ao fim, sem
aguardar ansiosamente aquilo que à todos é comum.
Estou longe, agora, daquele tão buscado Übermensch que tanto desejei alcançar. Sou agora apenas os restos , os fragmentos espalhados pelo chão, cujas chagas jamais hão de se extinguir. Um resquício que tão logo será coberto pelas areias do tempo.
Estou longe, agora, daquele tão buscado Übermensch que tanto desejei alcançar. Sou agora apenas os restos , os fragmentos espalhados pelo chão, cujas chagas jamais hão de se extinguir. Um resquício que tão logo será coberto pelas areias do tempo.
Sinto-me só… mas não é a ausência de pessoas, lugares ou vivências.
Para ser exato, sequer saberia explicar minha solidão. Tampouco depressão, uma
patologia. Sinto-me um hiperbóreo de minha própria vida.
Tudo tenho e ao mesmo tempo nada disso é meu; deveria sentir-me feliz, mas a felicidade já não me basta. Parece-me a felicidade mais uma característica dos pobres de espírito, dos ignorantes, da turba.
Abro a porta, retorno ao meu quarto tão sombrio, negro e
desfalecido como estará em breve meu coração. Continuo preso a essa cornucópia
de pensamentos. A marcha fúnebre da vida começou. Anjos e demônios vêm ao meu encontro. Então deito em meu leito,
reflito novamente, escrevo estas inúteis palavras e aguardo o sono. Esperando, assim,
que seja este o eterno adormecer de minh’alma; esperando sentir, então, o doce
abraço do Fim.

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