sexta-feira, 8 de março de 2013

Da Exaustão e Chagas Existenciais


Numa madrugada qualquer, acendo um cigarro e sigo até a varanda. Observo o lento e cálido alvorecer e, perdido entre o tempo que se esvai, flutuam minhas reflexões. Uma música fúnebre é audível; uma mistura entre a música do ambiente e a sinfonia da morte que se aproxima.

Os ventos trazem a brisa gélida. O coração parece querer cessar o pulso. Dou um trago, e com a fumaça exalada dos pulmões, a alegria, as cores da vida parecem também partir.
Olho para o horizonte e recordo meus passos: os caminhos que trilhei; as expectativas que mantive, as esperanças… todas elas desaparecem no espaço vazio, como se outrora jamais houvessem existido. Os amigos que fiz, os amores, a vontade de viver, tudo… tudo parece não mais que ilusório, um esboço malfeito daquilo que um dia ousei ansiar.

Vejo-me, agora, sob outra perspectiva: a perspectiva inferior, a perspectiva do negativo de um retrato. Já não mais mantenho qualquer expectativa. Parece-me a morte já tão comum… talvez até um meio, uma solução. Em vias de fato, sinto-me por vezes um covarde, incapaz. Covarde por não manter a coragem ao ponto de simplesmente finalizar esta medíocre existência da maneira mais fácil; incapaz por não poder parar o meu próprio tormento. O medo da morte toma-me ainda de assalto.

Em outros tempos, o ópio parecer-me-ia um inimigo mortal. Hoje, faz-se, talvez, meu melhor amigo — minha passagem para o fim, meu amargo, desesperado e acovardado ponto final, sem precisar enfrentar os provocantes olhos do Ceifador. 
Destruir-me lentamente ainda parece um meio mais rápido de chegar ao fim, sem aguardar ansiosamente aquilo que à todos é comum.

Estou longe, agora, daquele tão buscado Übermensch que tanto desejei alcançar. Sou agora apenas os restos , os fragmentos espalhados pelo chão, cujas chagas jamais hão de se extinguir. Um resquício que tão logo será coberto pelas areias do tempo.

Sinto-me só… mas não é a ausência de pessoas, lugares ou vivências. Para ser exato, sequer saberia explicar minha solidão. Tampouco depressão, uma patologia. Sinto-me um hiperbóreo de minha própria vida.

Tudo tenho e ao mesmo tempo nada disso é meu; deveria sentir-me feliz, mas a felicidade já não me basta. Parece-me a felicidade mais uma característica dos pobres de espírito, dos ignorantes, da turba.

Abro a porta, retorno ao meu quarto tão sombrio, negro e desfalecido como estará em breve meu coração. Continuo preso a essa cornucópia de pensamentos. A marcha fúnebre da vida começou. Anjos e demônios vêm ao meu encontro. Então deito em meu leito, reflito novamente, escrevo estas inúteis palavras e aguardo o sono. Esperando, assim, que seja este o eterno adormecer de minh’alma; esperando sentir, então, o doce abraço do Fim.

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