Hoje eu só queria estar chapado, anestesiado; só queria escapar de tudo. Já faz tempo, a vida parece-me não tão próspera quanto podia ser outrora. Tudo parece cada dia mais pesado.
Adoraria experimentar a tudo, como um Fausto. Mas onde está meu Mefistófeles? Onde está aquela figura elegante, culta e poderosa que levar-me-ia ao ápice do experimentalismo? Onde está esta criatura inconsequente? Estaria nos recônditos de meu coração? Estaria ele vagando por entre os colossais abismos de minha mente?
Às vezes gostaria de poder no tempo retroceder. Retornar ao ponto onde tudo parecia mais fácil. Um momento, talvez, imaginário, fantasioso. O pouco de razão em meu âmago jamais foi capaz de deixar-me absolutamente em paz. Agora, sobretudo, esta persona excêntrica, desprovida de objetivos, gélida e austera que hoje faz-se a mim comum parece ter mutilado, assassinado um outro eu, deixando apenas uma fagulha esquecida daquilo que poderia trazer de volta a cornucópia de cores e sensações que às outras pessoas parece tão usual, mas que a meu ser, não passa de um devaneio qualquer, intangível e até insensato.
Mas como todo e qualquer ser que ao demônio sua alma entrega, eis-me aqui, desfrutando, agora, apenas a danação. A danação do conhecimento; a danação da existência e de todos os males possivelmente a ela associados, ainda que a recompensa deste pacto sequer me tenha sido entregue. De maneira inexorável, sem perdão, sem indulgência. A última centelha antes do retorno àquele vácuo de onde nunca deveríamos ter saído.
Sem mais, Mors omnia solvit.

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